A diversão que há em fazer de tudo um pouco
Quando recebi o convite da Eliene para escrever aqui no Mulher Severino, primeiro fiquei lisonjeada, pois sei que é honraria que ela não distribui a qualquer um, mas depois veio um medo e um bloqueio sobre o que falar. Não sabia exatamente o que ela esperava de mim, que tema ela queria que eu abordasse e não me ajudou muito o fato dela me ter deixado bem à vontade. Foi pior que fazer redação pra vestibular, pois lá ao menos há um tema específico. E eu não queria fazer feio aos leitores do Mulher Severino.
Depois de relutar contra minha ideia inicial de pânico, resolvi ver o lado bom da experiência, como costumo fazer em tudo na minha vida. Decidi usar dessa liberdade em meu favor e escrever sobre o que me viesse à mente (e ao coração).
A Eliene me havia dito que me considerava um bom exemplo de mulher-severino. Creio que isso foi um enorme elogio, ou não foi? Foi a partir daí que resolvi desenvolver o meu texto
O que é ser mulher-severino?
Percebi que eu nunca tinha parado para pensar sobre isso. Vinha aqui, lia os posts e, mesmo achando o título do blog muito sui generis, não me importei em questionar sua origem.
Mulher Severino simplesmente faz tudo. Pronto. Seria isso? Mas toda mulher de certa forma faz um pouco de tudo, ou não?
Nós trabalhamos fora, criamos os filhos, dirigimos uma casa, fazemos compras para manter o lar funcionando, dividimos as despesas, quando não as pagamos na íntegra, controlamos o cardápio, o calendário de vacinas das crianças, supervisionamos as tarefas escolares, nos mantemos atualizadas em nosso campo profissional. E ainda esperam que façamos tudo isso de dentro de um jeans 38, com unhas impecáveis e cabelos em ordem. Decididamente não é fácil ser mulher em tempos modernos.
Ninguém disse que seria.
Hoje em dia, está cada vez mais difícil encontrar uma mulher à moda antiga, do tipo que se considerava “moça para casar”. A mulher ganhou espaço no mercado de trabalho e hoje disputa, se não de igual para igual, mas muito acirradamente com os homens a postos antes ocupados exclusivamente por figuras masculinas.
Se por ventura conhecemos alguém que ousa contrariar esse modelo de fêmea, nos espantamos. Mas por que cozinhar em casa nos finais de semana se há empregada para isso? Ou se há restaurantes para essas ocasiões? Por que perder tempo fazendo tantas coisas que podemos comprar prontas na padaria, na mercearia, na boutique, ou quando muito encomendar à costureira?
Eu diria que perder tempo é uma perspectiva muito relativa. Não se perde tempo quando se faz o que se gosta. Não se perde tempo porque o processo de elaboração é tão ou mais importante que o produto. A graça está em fazer e não em comprar pronto. Carinho é algo que não se compra pronto. E para quem ainda não conseguiu entender a diferença, procure se lembrar do cheiro de bolo assando no forno, numa tarde qualquer da nossa infância e veja se é a mesma coisa que o bolo (ainda que delicioso) comprado na delicatessen. Claro que não tem. Por mais simples que fosse o bolo da nossa casa ele era único. Só era feito lá. E exclusivamente para nós.
A vida tem cheiros, sabores e sensações que só podemos sentir quando temos tempo a perder com pequenas coisas. Depois que temos filhos, essas pequenas coisas crescem e descobrimos que na verdade elas são as coisas que realmente importam.
Tomar banho de chuva com as crianças uma vez na vida, regar o jardim em sua companhia, fazer um bolo com eles, decorá-lo com brigadeiro e depois sortear quem vai lamber a panela. Essas coisas não têm preço!
Construir algo junto com minhas filhas – seja artesanato ou uma receita culinária - transmite a mensagem eu me importo com você! Vou comprar o que puder para lhe manter, mas meu bem mais precioso para você é o meu tempo, a minha dedicação, porque não importa o quanto de trabalho se avolume em minha mesa, quando eu estou em casa, grande parte do meu tempo é seu e é um prazer gastá-lo dessa forma.
Não sei se eu mereço a designação de mulher -severino. Mas fico muito grata por ter sido assim considerada pela Eliene. Fazer de tudo um pouco é realmente a minha cara. Não sou especialista em nada, mas satisfaço minha curiosidade de mexer em vários campos, como uma visitante enxerida. Minha curiosidade e sede de aprender são qualidades infantis. E talvez isso facilite meu relacionamento com minhas filhas. Afinal de contas, tudo o que faço eu faço por elas e para elas. Se não diretamente, ao menos indiretamente.
E se não sair perfeito, azar. Quem disse que o perfeito é o correto? A diversão de fazer com nossas seis mãozinhas já fez valer a brincadeira. Estou certa?
Cláudia Ramalho
Cláudia é brasileira, alagoana, casada, mãe de duas filhas encantadoras, faz de scrap à festas infantis com uma habilidade e bom gosto sem tamanho, pinta, borda e rebola, cozinha divinamente bem, além de tudo isso e muito mais, é uma mulher autêntica, apaixonada pela família e pela vida, por isso foi a escolha perfeita para o primeiro Severino Convidado de 2010.
Obrigada Cláudia por compartilhar o seu talento conosco, pois para mim és um verdadeiro exemplo da Mulher Severino, fiquei muito emocionada com a sua participação. Beijos!